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(Última atualização: 09/05/2018 - 17:34)
09/05/2018

Consultor de políticas educacionais do Banco Mundial, egresso do Mestrado Acadêmico da EBAPE, conquista vaga em programa de doutorado no exterior

Quebrar paradigmas, traçar objetivos claros para conquistar o sucesso pessoal e profissional, assim como promover o desenvolvimento de jovens e líderes, foram alguns dos pontos que o alumnus do Mestrado Acadêmico em Administração Giovani Rocha destacou em entrevista concedida para a Rede Alumni Ebape.

Alumni Ebape - Por que escolheu a FGV EBAPE para o seu mestrado e quais as principais contribuições da Escola para a sua formação?

Giovani - A escolha foi estratégica, pois o programa acadêmico da EBAPE oferece uma série de ferramentas essenciais para que eu atingisse o meu objetivo principal, que era entrar em um programa de doutorado no exterior. A Escola me concedeu base teórica extremamente sólida e combinada à base metodológica, ambas no campo de política, área na qual quero atuar academicamente, além disso, a Ebape me possibilitou ter contato direto com professores de excelência, reconhecidos nacional e internacionalmente e que estão na fronteira do que está sendo desenvolvido no campo da política.

Aproveito para destacar a necessidade de trazer a representatividade racial para dentro da FGV. Isso se dá não só sob uma perspectiva numérica (pautada na minha presença enquanto aluno negro), mas também de fomentar, sob uma perspectiva acadêmica, uma discussão que ao meu ver precisa existir dentro de uma instituição do porte da FGV: a discussão sobre racismo no Brasil. Por isso que reforcei esse diálogo junto ao coletivo de alunos negros da FGV e pautei toda a minha dissertação na questão de representatividade racial na política brasileira e o comportamento do eleitor negro. Em outras palavras, entrar na EBAPE significou uma oportunidade de refinar a minha compreensão sobre essa problemática, entender como fomentar essa discussão em um ambiente acadêmico de alto nível e, finalmente, potencializar a minha entrada em um dos melhores programas de PhD no exterior para continuar alimentando essa discussão.

 

Alumni Ebape  – Que fatos poderia destacar sobre sua trajetória profissional?

Giovani - Destaco a minha trajetória dual de impacto social atrelado ao meu desenvolvimento acadêmico. Na graduação, me formei em Economia no Ibmec-RJ como bolsista e fiz intercâmbio nos EUA​, na University of Arkansas. No mestrado, fiz a EBAPE e o intercâmbio em Portugal, na Universidade Nova de Lisboa. Contudo, em paralelo, coordenei o LdA - Líderes do Amanhã, um projeto social de desenvolvimento de lideranças e potencialização de jovens estudantes de escola pública, em sua maioria negros e os primeiros de suas famílias a finalizarem o ensino médio. Por intermédio da ONG Vetor Brasil, trabalhei como consultor do BID na Secretaria de Estado de Educação do Pará. Hoje atuo no Banco Mundial junto ao MEC no escopo da Reforma do Ensino Médio. Em suma, essas experiências exemplificam o meu objetivo de realmente me tornar um ponto de conexão entre a Academia e o "mundo real", gerando conhecimento que possa diretamente influenciar positivamente o país.

 

Alumni Ebape   - Fale um pouco sobre sua atuação em projetos de desenvolvimento de jovens talentos?

Giovani - A partir da ONG Vetor que atua na potencialização e desenvolvimento de jovens talentos, alocando-os em posições estratégicas em cargos do setor público, comecei a trabalhar com educação pública na Secretaria de Estado de​ Educação do Pará. Além disso, como um dos valores principais do Vetor é a diversidade, eu os apoiei desde o desenho de ações afirmativas que promoviam uma maior representatividade de negros entre os participantes até a fundação do coletivo Vetor dxs Pretxs. Por intermédio desse coletivo, desenvolvemos treinamentos sobre a questão racial no Brasil e sua interseção com o desenho e a implementação de políticas públicas. Foi essa mesma apresentação e esse mesmo engajamento que me levaram a palestrar em lugares como o Ministério de Desenvolvimento Social e ser palestrante no evento TEDx por duas vezes (uma no TEDxBlumenau em 2015 e outra no TEDxSantarém este ano). Com o início do PhD, quero continuar contribuindo para fomentar a discussão sobre raça tanto em espaços acadêmicos como dentro da gestão pública, apoiando a conversão desse debate em políticas públicas focalizadas e de alto potencial de impacto.

 

Alumni Ebape   – Quais os principais desafios assumidos como Consultor de Políticas Educacionais do Banco Mundial?

​Giovani - O trabalho como consultor no Banco Mundial tem sido um grande desafio de articulação com atores do Banco, do Ministério da Educação e do governo federal como um todo. Um Acordo de Empréstimo na casa dos 250 milhões de dólares vai ser realizado pelo Banco Mundial junto ao MEC para fomentar ações estratégicas de apoio aos estados para a implementação do Novo Ensino Médio. Eu trabalho diretamente no desenho do acordo, na articulação estratégica e no desenvolvimento das assistências técnicas que vão apoiar os estados no desafio que representa essa nova etapa. Trabalhar em um projeto da dimensão da Reforma do Ensino Médio no Banco Mundial e no MEC é uma grande oportunidade de poder pensar uma política macro em educação que vai influenciar o país nas próximas gerações. Isso está diretamente ligado ao meu propósito de vida e, ao que espero, poder realizar com as contribuições acadêmicas que trarei para o país no futuro. Em especial, é também um desafio grande o de ocupar um espaço enquanto negro e trazer uma perspectiva que reflete o Brasil sob a ótica dos passos para a real inclusão e geração de oportunidades para jovens, independente da cor da sua pele, condição social ou origem. Hoje sou o único negro em quase todos os espaços que caminho em Brasilia, mas a atuação que tenho no MEC e no BM me faz pensar que é uma questão de tempo até que a minha história deixe de ser uma exceção e se torne uma realidade possível para muitos brasileiros que se parecem comigo.

 

Alumni Ebape   - Conquistar uma vaga para o programa de doutorado em Ciência Política em uma instituição internacional era um dos seus objetivos?

​Giovani - Sim. O caminho que tracei sempre tangenciou o doutorado porque eu sempre gostei muito de ensinar e sabia que aprender e produzir conhecimento (o que traduzo como "criar e buscar responder perguntas" a todo momento) faziam parte da minha essência. Contudo, entendi que a minha posição enquanto acadêmico que discute racismo e relações de poder no Brasil poderia elevar ainda mais o debate, sobretudo para espaços onde, infelizmente, hoje ele inexiste. Ganhei uma bolsa do Departamento de Estado Americano que custeou todos os meus gastos com aplicação (GRE, TOEFL, fees e etc) e entendi que aquele era o momento de dar o meu melhor para concretizar o objetivo do doutorado nos EUA. Passei para a University of Chicago e a University of Pennsylvania, ambas entre os 15 melhores departamentos de ciência política do mundo. Escolhi a UPenn como o lugar onde vou passar os próximos cinco anos da minha vida. Vai ser um desafio, mas um passo necessário. A minha visão é de que hoje o grande problema do Brasil é a baixa diversidade em suas elites intelectuais e econômicas. Em outras palavras, as pessoas que detêm poder de decisão e de influência de ideias são, em sua maioria, indivíduos que pouco refletem, viveram e pouco entendem os obstáculos que a maior parte da população, sobretudo a população negra, enfrenta. Esse é um gargalo para uma democracia representativa de verdade e, enquanto os que detiverem poder não entenderem os reais desafios da ponta com completude, dificilmente vamos acabar com as desigualdades que tanto definem o país. É por isso que fazer o doutorado e ser um acadêmico é tão importante para mim. Significa ocupar um espaço entre esse grupo, problematizar e provocar discussões estruturadas sobre os reais entraves do país ​ advindos de um histórico racista. Tudo isso entre pares que detêm as ferramentas e os recursos para de fato modificar a realidade. Além disso, ocupar esse espaço também significa poder inspirar outros jovens, que vieram de lugares como o que eu vim e que se parecem comigo, a me olharem e acreditarem no seu próprio potencial de também ocupar essas posições.

 

Alumni Ebape  -  Gostaria de acrescentar algum comentário?

​Giovani - Só queria adicionar que a jornada na EBAPE foi engrandecedora, principalmente, em função dos professores que lá encontrei e que tanto me inspiraram para seguir o caminho que começo a trilhar agora. Minha incrível orientadora, Daniela Campello, em especial e outros professores como o Cesar Zucco, Sonia Fleury, Rafael Goldszmidt e Octavio Amorim. Cada um deles foi essencial, da sua própria forma, para a minha construção enquanto pensador crítico da minha realidade. Se hoje a EBAPE é uma instituição que consegue colocar alunos com grande potencial acadêmico nas melhores universidades do mundo, isso sem dúvida só é possível pela existência de um corpo de professores que estão dispostos a contribuir com a formação multidimensional de pesquisadores brasileiros de ponta e que conseguem produzir conhecimento na fronteira de suas respectivas áreas. Só tenho a agradecer mesmo.

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